Visita ao Quartel 

 

 

 

           

 

            Eu sou da safra de 31. Uma boa safra. Muita gente de boa categoria é desta safra. Não digo os nomes deles por não ter certeza de que eles não se aborrecerão por terem sido citados, mas gente de importância.

            Só que eu tenho comigo um problema muito esquisito. Apesar de ter nascido em 1931 – 12 de abril – a minha certidão de idade é de 1929.

            Seria impossível eu ter nascido em 29, porque eu sou de abril e minha irmã de julho. Ela, nascida em 1929. Minha mãe, apesar de ter sido uma pessoa especialíssima, jamais poderia ter um filho em abril de 29 e 3 meses depois uma filha. É que a minha certidão de idade não veio de Maranguape, mas de Maracanaú e eu a recebi e, sem olhar, imediatamente a entreguei ao colégio. Só nos demos conta do erro quando o exército me convocou para servir. Eu tinha 16 anos. Fomos verificar e ali estava o grande grilo: eu oficialmente era de 29.

            Apresentei-me ao exército com dezesseis anos. É claro que seria impossível eu ser aceito, porque a minha magreza era algo  fora do comum.

            Basta dizer que, aos 10 anos, eu pesava 18 quilos e calçava 39. Eu era um L.

            No quartel onde me apresentei, em São Cristóvão, as pessoas chegavam a rir de mim. Fui gozado e apresentado a todos como uma figura ímpar…

            Meu certificado de reservista ficou sendo de terceira categoria, e o capitão que me deu este documento fez questão que eu ficasse em sua companhia por mais algum tempo, o que não me criou problema algum.

            Acabou que eu tive o prazer de ser convidado por ele para almoçar com os oficiais. Eu havia me transformado numa espécie de talismã daquele quartel, eu acho.

            E foi aí, na hora da refeição, que eu presenciei algo de que nunca mais me esquecerei. Um soldado chegou ao capitão com um prato e o mostrou ao oficial.

            - Por favor…capitão. O que é isso ?

            O capitão olhou, deu uma ligeira provada, cuspiu de lado e disse de modo definitivo.

            - Ora, soldado. Isto é piche.

            E o soldado:

            - Pois é, capitão… O cozinheiro quer convencer a gente de que isso é tutu.

            Nesta hora eu dei graças a Deus pelo certificado errado que me enviaram de Maracanaú.

                                   

                                                                                                        Chico Anysio

 

 

 

 

Desenho:      RPires