ENCONTRO DE CARÊNCIAS
A Feirinha estava muito animada apesar de meu cansaço seja pela
manhã de serviço ou pela pequena viagem evangélica à Barroquinha.
Professor Junior, conclamava os presentes ao consumo das gulozeimas
que, carinhosamente, foram feitas pelas prendadas mulheres da
Primeira Igreja Batista de Camocim. Eu estava faminto em vários
sentidos... Procurei comer algumas tortas o que me custaria, mais
tarde, uma noite de azia e má digestão...
Mas as necessidades básicas são muito imponentes e venceu o instinto
imprudente e, em poucos minutos, três tortas foram devoradas com
seus respectivos copos de refrigerantes, o que eu não fazia há
tempos. Também me senti autorizado a este pequeno excesso para
equilibrar a forte carência emocional pelo afastamento de
minha mulher em face de mais uma crise conjugal...
Satisfeita esta carência digestiva percebi que uma jovem senhora me
olhava com um jeito simpático e apesar de não me lembrar seu nome
achei a pessoa conhecida, talvez da cidade pequena que vivemos ou
até da igreja... Sorri delicadamente me aproximando e iniciei uma
conversa inocente saudando-a com o já costumeiro “O Senhor está
contigo!" e conversamos coisas simples do cotidiano...
Num certo momento da conversa, fiquei meio desconcertado quando a
jovem senhora comentou a respeito de meu perfume dizendo: Que cheiro
gostoso! Foi dizendo e fazendo... Lascou-me um cheiro delicado no
cangote que um arrepiou me percorreu a costela...
Entrei em pânico! Estava sendo caçado... E o pior: estava em
público! E que público! Era a feira de fim de semana da Igreja e
estávamos juntos com todos os irmãos... Quase morri de vergonha. Fiz
um rápido levantamento em minha volta e vi o pastor, minha
respeitada (e zangada) mulher e todos os meus colegas da Igreja...
Analisei, rapidamente, que eram mais de vinte horas e que meu
perfume "Two One Two Sexy Man" colocado de manhã (será que este é um
perfume de crente?) já havia, praticamente, desaparecido... Logo, o
cheiro percebido pela jovem fêmea era ferormônio masculino. Ela
estava carente ou no cio e devo ter, inocentemente, (?) sinalizado
quimicamente minhas carências pessoais. Olhei com mais calma o rosto
da mulher e percebi o sinal inconfundível de sobrancelhas quando uma
fêmea detecta uma caça em potencial. Fiscalizei-me para não tocar os
dedos delicadamente no meu nariz respondendo ao seu convite.
Não sei se já disse, mas já fui um grande predador - (pecador) - e
conheço a fundo as coisas da sexualidade "mascu-feminina" e usava,
descaradamente, isto nas minhas investida carnais dirigida ao
pecado. Fiz uma pequena oração silenciosa e iniciei com ela um novo
assunto contando sobre o texto que havia pregado na Barroquinha
sobre o amor - lº. Coríntios 13. Podia, enquanto narrava, ouvir,
ainda dentro de minha alma, a voz de Abraão puxando o hino do cantor
cristão nº.154 - Firme nas Promessas.
A mulher não entendeu nada! Li a frustração em seus olhos e resolvi
bater em retirada com a desculpa de socorrer o Pablito que se
aproximava, perigosamente da amurada que protege a bela Beira-Mar
camocinense. Peguei o “baby” no colo e de frente para o mar retirei
minha dentadura sem que ninguém percebesse e coloquei no bolso.
Queria envelhecer uns anos e evitar - reduzir - sinalização de
charmes e carências pessoais. Pensei em pedir socorro ao Pastor que
é um homem de incomum sabedoria e percebi que o estava importunando,
pois antes que eu iniciasse a conversa pediu licença e afastou
delicadamente para falar com sua mulher... Assustei-me: será que
percebeu o incidente e está aborrecido comigo? Senti-me culpado...
Oh sentimento doloroso! Parece que foi inventado pelo próprio
Belzebu...
Resolvi tocaiá-lo e descobrir um pouco mais sobre o ocorrido e assim
que o respeitado Pastor ficou só, abordei-o, novamente,
perguntando-lhe se estava ciente de que seria muito importunado pelo
seu rebanho quando assumiu sua vocação ministerial. Respondeu-me,
delicadamente, que sim e que havia observado o que se passava com
seu pastor na época. Delicadamente, pediu licença e se refugiou no
meio das pessoas que transitava na feirinha escapando, assim, do
chato bezerro desmamado que o importunava. Me auto-critiquei e
prometi a mim mesmo deixá-lo em paz. O homem estava verdadeiramente
cansado e precisava de um pouco de paz! Além do mais eu precisava ir
embora, pois a coisa não estava muito boa para o meu lado naquela
noite. Agradeci, silenciosamente, a Deus pelo fato de ter recebido,
de volta, a importância de R$300.00 que perdera no inicio da feira e
fora encontrado por um irmão e devolvida. (Ambiente crente é assim!
Se fosse um ambiente laico nunca mais veria a grana! – que era da
Empresa onde trabalho)
Chamei Aninha e sua comitiva (meus filhos Raquel e Pablo) e fomos
embora.
O que ficou pensando aquela jovem senhora, nem imagino, mas confesso
que já estava na defensiva há alguns dias por causa de minhas
carências tanto que exibia uma barba por fazer de vários dias para
evitar extravasar sobre as mulheres com que me relacionava minhas
emoções e carências, evitando, assim um "Encontro de Carências".