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Eu, menino de cinco anos, caçula de três irmãos,
tornei-me ouvinte da Escola D. Pedro II porque minha mãe costurou
um vestido cor-de-rosa cheio de babados e bicos para a filha da
professora Maria Embiruçú, a mulher do prefeito. Meu pai, um parvo
ferroviário, salário curto complementado com as prendas domésticas
que Maria Tanajura fazia com gosto e orgulho para enfeitar as filhas
dos mais abastados, calado ficou. A mulher do prefeito, primeira
dama da cidade, professora primária que sabia tocar piano, caiu na
minha graça sapeca e convenceu a costureira, minha mãe, a me levar
para a escola como ouvinte, num tempo em que não havia jardim de
infância, pré-primário nem outras novidades do ensino moderno.
Também Gerson, o ferroviário, nem Maria, mulher de prendas domésticas
que fazia vestidinhos de crianças, orgulho de toda a cidade, não
tinham dinheiro nem beiras para mandar o caçula folgazão para tais
novidades de ensino. Assim deixei de brincar com novelos de linha
Corrente que coloriam de matizes os meus sonhos. De repente me vi
perdido no meio de mapas, cartazes e calendários da
sala de aula. Eu, sapeca menino folgazão, ouvia tudo como um
bom ouvinte deve ouvir e viajava nos mapas, nos dias, nos meses e no
acumular dos anos.
Que vem depois do ano de 1948? Sabia a resposta
correta: 49. Depois década de 50, anos dourados a empurrar as
rebeliões de 60, parecidas tão longe do ano 2000.
Eu, rapaz ainda aprendendo as coisas da vida,
fiapo de gente, lembrando a cafua que meu irmão me amostrou na
escola, quando ainda era ouvinte: quarto pequeno e escuro, lugar
miserável, cheio de morcegos, onde ficavam de castigo os alunos que
não sabiam a lição. Futuro perfeito, 70, propagado num milagre
que não sei se existiu, trazia sempre a lembrança da pergunta de
infância, quando ainda menino de Nazaré: que serei eu no tempo que
o Milênio chegar? Já solto nas estradas dos mapas, cidade
maravilhosa, com os restos dos cartazes da marcha dos cem mil dos
anos 60, contando novos dias nos calendários dos porões do
DOI-CODI, mandado para as cafuas da repressão por saber demais a lição
das coisas e pensando se chegaria com lucidez até o
ano 2000.
Eu, me devorando em todos os anos 80, talvez
renovando e revivendo, posso dizer: renascendo com todo o preparo
para florescer quando virem os 90, vertigem do tempo até o ano
2000.
Eu, homem já maduro, ou nem tanto, quiçá peco pelos
fios do passado,
roendo os ossos do ofício, juntando o Leste ao Pacífico em pleno
ano 2000, longe das cafuas que não me amordaçaram, pensando que,
quando ainda era ouvinte, repito, na Escola D. Pedro II em Nazaré
das Farinhas e a professora me argüiu, querendo resposta firme de
sete números primos, negócio que eu não sabia, e fui logo mandado
a muque pra cafua, coisa que, com astúcia, me rebelei e fugi, pois
só sabia dos primos queridos que brincavam comigo debaixo do
abacateiro onde os pássaros faziam seus ninhos. Ficava à margem do
rio Jaguaripe vendo as águas correrem para o mundo, averso a
quaisquer cafuas, e aprendendo com
os pássaros a voar pelos anos da vida, quando bem entendesse, neste
mundo de meu Deus, em completa liberdade.
Fernando Tanajura Menezes
Fernando Tanajura Menezes
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