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Se você conhece os donos deste prédio onde outrora esteve instalado o Sport Club, escreva-nos! |
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Para o povo Camocinense o Sport Club continua em chamas, esperando que alguém promova a sua reconstrução! RPires |
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SPORT CLUB
Na
primeira década deste século findante, da era de Cristo, os
camocinenses de elite, fundaram o primeiro clube social da terrinha, a
que deram o nome se SPORT
CLUB. Edificaram-no em suntuoso prédio de notável estilo, com
amplos salões e outros necessários cômodos, cujo serviço de bar,
ficava em ampla e graciosa varanda lateral, tudo em solo alevantado à
altura de dois metros e piso de decorativos mosaicos. Era uma beleza, o
SPORT CLUB, que até hoje mantém, desafiando o tempo, paredões que
sobraram ao infausto incêndio ocorrido no ano de 1931, coisa pavorosa e
inclemente, que a nada poupou, e fazia lembrar a descrição de Raul
Pompeia, sobre o pavoroso incêndio
do notável educandário que foi, no Rio de Janeiro de antanho, o
suntuoso e tradicional ATHENEU, do severo e temido diretor ARISTARCO.
Amplos
salões eram destinados às danças e tertúlias; sim, na época, a
Elite dava singular e aprimorado destaque, às letras e às artes,
embalada pelos versos da poesia em voga, trazida pelas asas do
Parnasianismo emergente, de que se deleitavam Alberto de Oliveira,
Bilac, Raimundo Corrêa e tantos outros. Tal cultivo era
seguido de perto, pelo Grêmio Literário Camocinense, fundado
por Júlio Cícero Monteiro, que também foi Diretor do conceituado
jornal A RAZÃO, semanário de bom feitio, e que possuía oficina gráfica
própria, que pertencera, anteriormente, ao jornalista André Pessoa,
cidadão possuidor de vasta cultura.
As
paredes internas do SPORT CLUB, era adornadas com pintura a óleo,
verde-claro, e emolduradas por
admiráveis decorações
pinturas elegantes, da arte
do artista plástico Manuel Queiróz, de elegante estilo, que se
transferiu posteriormente para o Rio de Janeiro, onde passou às atribuições
de ilustrador das revistas mais importantes da época, na
corte, bem como, na qualidade de estilista admirável, tornou-se
mestre em decorações ambientais. Manuel Queiróz, meu tio, participou
com destaque, na cidade de Fortaleza, em exposição de artes plásticas,
instalada no dia 09/09/1924, promovida pelo artista Walter Severiano, em
que pontificaram azes do pincel e da paleta, como notificou o jornal
alencarino, Correio, da mesma data. Contou-me Mozart Alves, amigo e
companheiro de viagem ao Rio, de Manuel Queiróz, que, em certa manhã,
em determinada alameda de Fortaleza, ele desenhou em traços rápidos, no
chão de mosaico, o perfil de uma senhora ali presente, à qual dirigiu
a palavra: “Veja aqui o que obrei!”, ao que a surpresa senhora
espantada, disfarçou encabulada, sorriso maroto, mudando o imaginário
susto, da suposta insolência.
O
SPORT CLUB, palco de grandes eventos, promoveu sessão solene e baile
elegante, em recepção ao aeronauta Pinto Martins e seus quatro
companheiros de aventura, quando aqui amarou no hidro-avião Sampaio
Corrêa II, vindo do tortuoso e pioneiro RAID AÉREO, Nova Iorque-Rio de
Janeiro, quando desejavam
estar presentes, no Rio de Janeiro, aos festejos do primeiro centenário
da independência do Brasil, ocorrido a 07 de setembro de 1822, mas, que
ali chegaram, no início do
ano seguinte, por causa de acidentes e imprevistos com que tiveram que
lutar.
Na
solenidade do SPORT CLUB, os aeronautas foram saudados por elegante
discurso do jornalista conterrâneo, do Jornal RUBI, Sr. Raul Rocha.
A senhorita ROSSI AGUIAR, jovem de rara
beleza, por incumbência da Sociedade camocinense ofertou flores e
valiosos presentes, aos ilustres itinerantes, que alçaram vôo, na manhã
do dia seguinte ao da chegada, 12/12/1922. Ao descrever várias voltas
sobre a cidade, em despedida, o povo batia palmas, até que a silhueta
do monstro aéreo, desapareceu no infinito do espaço, deixando o povo
feliz, e moçoilas suspirosas. Pinto Martins, com seus companheiros
inaugurou na praça que tem o seu nome, aqui em Camocim, uma placa de
bronze, que ainda aí está, no frontispício
da casa em que nasceu. Em futuro trabalho, darei conta de toda a
odisséia dos intimoratos aviadores, em todo o trajeto da viagem.
Assim
era o SPORT CLUB de Camocim, ceifado por um brutal incêndio, mas que
ainda mantém intacta, parte de sua estrutura, num arcabouço que
desafia o tempo, cuja frente impávida,
ainda retrata a beleza de desenhos emoldurados, em colunas tipo neo-clássicas,
tiradas ao gótico, capitéis, cornijas e cimalhas graciosas, obras de
pedreiros da terra – trabalho que já não existe quem faça -,
verdadeiros mestres de obras de antanho, formados na escola do trabalho,
com destaque para o mestre José Eufrásio de Oliveira, bom caráter e
bom pedreiro. O custeio da obra do SPORT, foi dedicação espontânea do
meu padrinho João Batista Veras,
empresário de larga visão progressista, um típico MECENAS. Foi ele,
também o idealizador do
Cine Teatro Éden, no ano de 1929, o que marcou época na cidade de Camocim.
Assim
como a Peste Negra do século XIV, que dizimou na Itália, apreciável
parte da população, notadamente na cidade de Florença, de que nos dá
conta Giovani de Boccácio, no magistral DECAMERÃO, também aqui, pelo
início do segundo quartel do século, passou a epidemia de uma tal
febre paratifo, que ceifou em um só início de inverno, vidas preciosas
como a do João Veras, Júlio Carneiro, Pedro Ferreira e algumas mais,
escapando por milagre, como se dia, Abêncio Araújo Batista, ainda
vivo, na ante-sala dos cem anos.
Foi,
portanto, no dealbar da fatídica manhã do ano de 1931, que acabou-se
em chamas, o suntuoso SPORT CLUB, de histórica tradição, quando o
povo espantado, saiu às ruas, ante o inusitado bimbalhar do sino da
Igreja Matriz, anunciando a desdita. Este escriba, que morava perto,
atordoado e espantadíssimo, pulou da “tipóia”, ainda de chambre,
chupando o bico e arrastando o lençol mijado, acompanhado dos dois irmãos
mais velhos, nós, de olhos esbugalhados, e trêmulos, assistimos da calçada
alta da morada de nosso avô Joaquim Carneiro, à rua da Aurora, hoje
trecho da rua Santos Dumont, ao insolente e tétrico fogaréu. Como o
axioma: TAL PAI TAL FILHO, isto faz-me lembrar o belo Frederico, criança
de melenas loiras e olhos azuis, que também mijava na rede. Não sei se
ainda hoje, depois que apelidaram-no de doutor engenheiro e perambulante
dos desvãos deste vasto mundão, ainda assim procede,
já que nossa árvore genealógica, sempre navega pelos mares do conservadorismo. |
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