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AS
TRAQUINAGENS DO CAVALO ALAZÃO
Como
toda boa moça do interior que estuda fora, quando chega as férias, o
destino é voltar para casa, ao aconchego de seus pais (família),
comigo não era diferente. Quando o mês de julho se aproximava, eu
começava logo a arrumar as malas para seguir viagem lá para o meu
sertão, onde me deliciava com as cavalgadas do Alazão, mais
conhecido como Cavalo Castanho.
Meu
lazer predileto no Boqueirão era andar a cavalo, desde que ele não
resolvesse aprontar, pois quando isso acontecia, sai de baixo! O
melhor cavaleiro que existisse, não conseguiria segurar-se sobre
aquele cavalo malino.
Todos
lá em casa diziam que ele era um cavalo manso por ser castrado e que
não havia perigo de sair correndo atrás das éguas, por tanto era
confiável. Foram várias as vezes que curti os passeios cavalgando o
Alazão, até que um dia ele resolveu nos dar um susto. Foi quando a
mamãe foi visitar seu pai, vovô Estevão, no Angico, mais ou menos
uma légua de distância do lugar onde morávamos. Então montamos no
Cavalo Castanho e lá fomos nós... galopando: "chi co toc.. chi
co toc.. chi co toc" quando de longe avistamos um empecilho no
caminho e agora o que fazer? Era um buraco muito grande, feito pelas
chuvas do inverno. Mamãe confiou no cavalo e esperou para ver o que
ele ia fazer... já pensou? Se gente comete erros, imagine um animal
irracional! Só sei que o atrevido decidiu ir em frente e encarar o
obstáculo, mas ao atravessar o barranco, tropeçou na beirada, indo
bater no chão conosco. O desespero era feio, pois me achava sozinha
no mundo. Lembro-me que olhava para o céu e dizia: "matei minha
mamãezinha", pois que eu a via esticada com cavalo e tudo
naquele barranco. Ainda muito menina, não entendia que ela pudesse
estar viva. Mas antes que o desespero aumentasse, ouvi uma voz
consoladora dizendo: "Calma, menina, eu não morri, me ajuda a
sair debaixo do cavalo..." Ao passo que me alegrava, sentia que a
situação estava se complicando, pois como era que eu ia tirar o
Alazão de cima dela? Rapidamente, veio um clarão em minha mente e
resolvi cutucar o animal com uma rama verde, evitando machuca-lo e na
esperança que ele se levantasse. Assim fiz, conseguindo um final
feliz. Ambos estavam bem.
Montamos
novamente no pobre Alazão e seguimos viagem. Na volta tudo
transcorreu às mil maravilhas, desta vez, conseguimos sair ilesas.
Não
satisfeito com a primeira aprontada, resolveu castigar um pouquinho
mais. Em outro passeio com minha irmã Francisca Maria, fizemos uma
maratona nos Altos (local onde mora uma boa parte de meus parentes)
para visitar meus tios. A lástima do cavalo não estava com sela,
encontrava-se apenas com uma manta. Pensei que o lugar, sendo perto,
jamais haveria problema se o deixássemos assim, mas o fato é que ao
voltarmos do passeio, por volta das 17:00h, apreciando a paisagem
verde e o pôr do sol, decidimos botar o Alazão para galopar pois a
noite se avizinhava e mamãe certamente estaria preocupada conosco. O
problema todo é que o Cavalo Castanho não estava nem um pouquinho a
fim de ser mais veloz, queria mesmo era trotar. Acho que a paisagem e
o pôr do sol o deixou com moleza. Seu desdenho para conosco era
tanto, que quanto mais o aperreávamos para galopar, mais ele trotava.
Então não resistimos e caímos na gargalhada, assustando, assim, o
animal. Foi quando resolveu correr, pegando-nos desprevenidas. Só deu
pra gente! A manta escorregou e fomos parar no chão. A Francisca caiu
na areia, mas eu não tive a mesma sorte: caí me ralando num tronco
de cajueiro recém-derrubado cujas farpas, que mais pareciam um monte
de agulhas com pontas brilhantes e afiadas, entravam pela roupa,
rasgando-as e cravando-se na pele branca de minhas costelas. Para não
dar na vista ao chegar em casa, tratei lá mesmo de trocar a blusa com
minha irmã, fazendo o incidente parecer menor e assim esconder as
tiras de "couro" retiradas de minhas costas. Colocamos a
manta de volta no cavalo, montamos e seguimos para casa.
Paguei
um preço alto na hora de dormir: penei porque sentia dores por tudo
quanto era osso das costelas. O certo é que, para vivermos em paz,
procuramos esquecer as dores e deixar gravadas em nossa mente,
principalmente, as alegrias e o que vemos de bom na vida.
Pois
bem, não pararam por aí as traquinagens do cavalo Alazão. A última
que ele aprontou foi quando resolvemos ir ao Jacurutu tomar um banho
de açude. Dessa vez estávamos prevenidas, Graças à Deus! O cavalo
estava selado com arreios e tudo mais, caso contrário não estaria
aqui contando esta história. É, meus amigos, só quem viveu o
momento é que sabe o perigo que corremos. A Francisca, minha irmã,
que o diga.
Tudo
recomeçou quando, de outra feita, no lombo do Alazão, nos
aproximávamos da casa do seu Nicó, e o animal, ouvindo o relinchar
de uma égua, nos pegou de surpresa, repentinamente, numa desabalada
carreira, desenfreadamente em direção a uma cerca. Por mais que eu
puxasse suas rédeas para fazê-lo parar, não tinha forças para
competir com um animal daquele porte, forte que só ele! Lembro-me que
minha irmã gritava dizendo: "Puxa as rédeas com força, Aninha,
e eu a respondia: "Não consigo controlá-lo!", então veio
a pergunta: "E agora?" Respondi: "Te segura que nosso
fim está próximo".
Não
sabíamos aonde ele ia chegar, se pularia a cerca conosco ou se
simplesmente nos jogaria contra ela. Então me imaginei espetada numa
estaca de sabiá, a Francisca esborrachada nas pedras e o cavalo livre
para namorar suas éguas. De repente me veio a lembrança de que o
cavalo era castrado, devo ter transmitido este pensamento ao animal,
pois ao chegar próximo ao quintal da casa, ele fez uma brusca parada,
pregando-nos um baita susto. Quando então sussurrei à Francisca
(hoje minha comadre): "E é por que é capado, imagine se não
fosse?"
Hoje
resta somente a história que servirá para relembrar o tão querido,
adorável e traquino Cavalo Castanho que o malvado do tempo se
encarregou de definhar – ele não perdoa, assim fará com todos nós
um dia.
Ana
Pires
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