CADEIRA 23: Anésio Frota Aguiar

 

                                  

José Luis de Araújo Lira

                              

DISCURSO DE POSSE –

 

Discurso de Posse na Cadeira de no 12, da Academia de Letras

Municipais do Estado do Ceará – ALMECE –

Município de Guaraciaba do Norte.

 

Raras são as palavras que podem resumir a emoção de um menino do interior, persistente, que, como contradizendo o destino, se muda para a Capital de seu Estado, com escassos recursos financeiros, mas com o ideal de vencer, de obter a concretização de seus sonhos. 

É certo, sou um privilegiado. Não posso, como muitos dos senhores, dizer: herdei esse dom de algum parente. Não sou de uma família de intelectuais, sou de uma família simples, dedicada ao cultivo da terra, todavia, as lições de vida, de coragem, o exemplo dado por meus pais, são os norteadores da ética como um todo. Seus conselhos ainda ecoam: ser honesto, trabalhador e procurar “ser gente”. Papai, mamãe, é uma felicidade tê-los como pais e mais ainda, poder dividir com os senhores, momento tão importante como esse. De simples agricultor, a comerciante de sucesso em Guaraciaba do Norte, essa foi a trajetória do Sr. Izidio Lira, que ao lado de sua companheira incansável, Luizinha, constituiu a família Araújo Lira, da qual sou o terceiro de cinco filhos.

Vencedores, os dois nos contagiaram com sua vontade e determinação.
Além da bela família que tenho, tive a sorte de contar com a amizade de um grande sacerdote, cuja influência sobre mim foi das mais positivas. Mons. Antonino não foi só o Vigário da Paróquia de Nossa Senhora dos Prazeres, mas um amigo, pai e orientador. Seu exemplo foi tão determinante a ponto de, até mesmo achar que tinha vocação para o sacerdócio. 

Minhas primeiras leituras extra-curriculares foram por ele incentivadas. Quando comecei a ler José de Alencar, foi com a seguinte indicação: Eu já li este livro, não lembro muito bem da história, não estou com tempo de ler novamente, como você tem tempo, leia e depois me conte!. Algumas vezes foram necessárias tal recomendação, depois, naturalmente lhe pedia livros para ler. Foi assim que conheci a obra de Machado de Assis, Manuel Bandeira, Carlos Drumond de Andrade, Euclides da Cunha, dentre outros consagrados mestres da nossa literatura, quando a presença do dicionário era quase sempre necessária. 

Certo dia, numa de minhas procuras na biblioteca de Mons. Antonino por novos livros, deparei-me com o O Quinze, da escritora Rachel de Queiroz. Com essa leitura, nascia uma grande paixão. Era curioso, com o seu desenvolver, ia descobrindo a linguagem do meu povo, minhas origens e logo busquei por novos livros desta escritora.Rachel, consagrada imortal, a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, se tornou um referencial na vida literária do menino dos Correios, que, aos poucos, conquistou a simpatia de seu mito, a ponto de representá-la em evento social e mais ainda, contar com seu valioso voto para a Academia Cearense de Letras. Sinceramente, poucos momentos me contagiaram de tanta emoção e alegria. 

Vale salientar que meu primeiro ato como acadêmico eleito foi a sugestão à Diretoria da outorga de título de Sócia Honorária à Rachel de Queiroz, que após, entendimento pessoal, recebeu a mim e comissão da ALMECE, em sua Fazenda Não Me Deixes, em Quixadá, onde foi-lhe entregue a comenda das mãos do Presidente Lima Freitas, em ares de solenidade. Recebi telefonema congratulatório por minha posse neste Silogeu seu e de sua irmã Maria Luiza de Queiroz, o que faço questão de registrar. 

Mas, hoje a festa é guaraciabense. Guaraciaba que meus avós conheceram Campo Grande. Nasci no Sítio Correios, parte do cinturão verde daquele doce recanto da Ibiapaba. Nas palavras do saudoso Pe. Assis Memória, guaraciabense que pertenceu à Academia Carioca de Letras, Da gente Tabajara és relicário, talvez do forte Tupã, foste sacrário. Nos seus primeiros anos, Campo Grande, viveu períodos de turbulência, mas a paz e a concórdia logo se estabeleceram naquele povoado que, aos poucos, se constituía uma grande família, no arraial dos memórias, onde reinava Clínio, o Cel. Clínio Memória. 

Grandes figuras merecem registro nesta noite, a começar pelo escolhido para nosso Patrono na Cadeira de no 12 desta Academia, representando o Município de Guaraciaba do Norte Mons. Antonino Cordeiro Soares. Nascido no Ipu, a 6 de agosto de 1908, foi ordenado sacerdote a 21 de setembro de 1935, há quase 65 anos, pelo Bispo Conde de Sobral, Dom José Tupynambá da Frota e no último dia daquele ano, era nomeado Vigário de Campo Grande. A 12 de janeiro de 1936, ali tomava posse, na presença dos fiéis e do amigo, hoje Bispo Emérito de Estância, Dom José Bezerra Coutinho, ausente por motivo de saúde e de ter de estar aqui na próxima Quinta-feira, como homenageado da ALMECE. Naquela oportunidade, se tornava guaraciabense e começou a desenvolver o seu apostolado no Campo Grande. Cinqüenta e quatro anos, fundando escolas, reformando e construindo igrejas, se tornando o maior benfeitor daquela terra. Isto é apenas uma justificativa da nossa escolha de seu nome para Patrono. Todavia, Mons. Antonino foi muito mais. Sábio, culto e homem de fé inabalável, poderia ter dito como o Apóstolo Paulo: “Sei em quem acreditei!”. 

A educação naquele Município, nos remete aos distantes Pe. Pimentel, Pe. Mororó e Senador Pompeu. Emília Botelho Fernandes a dona Milica, o Tenente Matias, as benfeitoras Maria Ruth Soares e Maria Osmar e tantos outros benfeitores e professores, dentre eles, a minha amiga Nenê Martins, minhas professoras: dona Madalena Ribeiro, Socorro Souza, Ir. Marinete, Ir. Raimundinha, destacando o professor de muitas das minhas professoras, o grande João Barreto dos Santos que em poema disse: Guaraciaba, ó linda flor serrana! Sempre fui teu amigo dedicado. 

E, indo a teu Céu, indo a teu solo amado, de bem querer, meu coração se ufana!... E, faço minhas as palavras do Prof. Gerardo Campos: Todos cantam seu colégio, quero ter o privilégio de também cantar o meu... para registrar meus agradecimentos ao Instituto Benjamin Soares, onde estudei e trabalhei em Guaraciaba do Norte e à UNIFOR, Universidade de Fortaleza, minha segunda casa aqui em Fortaleza, neste momento representada pelo Diretor de seu Centro de Ciências Humanas e imortal da Academia Cearense de Letras, Prof. Dr. Batista de Lima, professores do Curso de Direito, que saúdo na pessoa do competente e quase conterrâneo Prof. Dr. José Cavalcante Fonteles e, é claro, meus colegas de sala de aula. Na política, não posso deixar de citar os Coronéis Clínio e João Cícero Memória, Pe. Olegário Memória, Dr. Carlos Lobo, das famosas barricadas, das memoráveis lutas pelo poder, até chegar àquele que primeiro, entre nós, tomou assento na Assembléia Legislativa do Ceará, o saudoso Deputado José Maria Melo, prefeito do Município por três vezes. Quase todos os atuais políticos foram por José Maria Melo introduzidos na Política.

Os tipos populares inesquecíveis como o Sr. Fernandes, dono de farmácia, parteiro e tabelião, figura humana de grande expressão e os contadores de história, como Raimundo Pimenta, Ciríaco Ferro, Aleixo de Carvalho e tantos outros. O poeta Torres Lemos, a quem gostaria de plagiar: Guaraciaba, ah! Se eu te levar pudesse... Os escritores, saúdo nas pessoas do grande Dr. Fonseca Lobo, dedicado aos estudos filosóficos e científicos, tendo deixado inúmeros trabalhos publicados e da nossa mais jovem escritora: Francisca Baltazar de Souza. 
Os sacerdotes, em Mons. João Alfredo Furtado, saudoso Vigário Geral da Arquidiocese de Fortaleza e Mons. José Aristides Cardoso, virtuoso sacerdote descendente da família Memória, com quase sessenta e dois anos de vida religiosa.

Este guaraciabense não tem palavras para manifestar seus agradecimentos a Vossas Excelências e a sua honra em representar, nesta augusta Entidade Literária, aquele tão querido torrão natal.

Alguns povos, principalmente os Africanos, quando iam fazer ou assumir algo muito importante, recorriam às suas divindades e antepassados. É por isso que neste momento, faço primeiro meu agradecimento e peço ajuda ao onipotente criador, o Deus supremo autor da vida e de todos os entes queridos que já estão no plano eterno da vida, especialmente o Vovô Lira, meu grande incentivador. Senhores, é grande a alegria que me reveste neste momento ímpar. Obrigado, de coração, a todos os que aqui vieram, aos parentes, das famílias de sangue, destacando meus pais: Izidio e Luizinha Lira, irmãos: Luiza Maria, D’ Assis, Sérgio e Elisiane, cunhados: João, Ana Maria e Valnice e sobrinhos: Lusiane, Leila, Leandra, Sthephanne, Orleandro e Lucas e famílias de coração, que são tantas; aos inúmeros amigos; aos colegas de faculdade e trabalho; à Universidade de Fortaleza e a seu ex-reitor, meu amigo Dr. Colaço Martins, ausente a este evento, por ter, de na próxima quinta aqui estar, para receber homenagem desta Academia; ao empresário Fernando Cardoso Linhares; aos conterrâneos vindos de Guaraciaba do Norte; a todos os membros desta Academia, especialmente ao seu Presidente, acadêmico Lima Freitas, que me indicou para esta agremiação e à agora colega Francinete Azevedo, que calorosamente me apresentou, nesta noite, as honras da casa. 

Trouxestes, para participar desta Casa Literária, um filho da bicentenária Campo Grande, hoje Guaraciaba do Norte, lembrando como o Prof. Barreto que O nome pouco importa Um grande afeto une-me a esse rincão da Ibiapaba. Sou da geração que cantou as músicas de dois imortais que não se fizeram presentes nas lides acadêmicas. Um deles alertou a necessidade de nos amarmos, como se não houvesse amanhã, falo de Renato Russo. Outro pediu ao País: Mostra tua cara!, este é o poeta Agenor Araújo o Cazuza. Lutamos pelo progresso desta Nação e, em sua defesa, a exemplo dos índios, quando vão à guerra, pintamos nossa cara, sob a coordenação dos então dirigentes da União Nacional dos Estudantes, Lindemberg Farias, Presidente e Egídio Guerra, então Vice-Presidente da UNE, nosso amigo e co-autor de um livro que estamos a preparar. Mas, como jovens, tivemos a ajuda de três jovens um pouco mais vividos, digo melhor, três caciques: o saudoso jornalista, advogado e acadêmico Barbosa Lima Sobrinho, a maior bandeira da liberdade e do amor ao Brasil; o Dr. Ulisses Guimarães, vulgo Dr. Diretas, Dr. Constituição Cidadã e adjetivos afins, cujo desaparecimento, representou um golpe da morte à democracia e se o País precisou de defensor, chamou-se seu maior advogado vivo, o ex-Ministro do STF, Evandro Lins e Silva, modelo a nós que estudamos e futuramente trabalharemos o Direito. 

Orgulho-me desta geração! Para concluir, rendo minhas homenagens ao anfitrião, Juvenal Galeno, pois estamos em sua casa, citando trechos da poesia O Cearense: Se carece de soldado, Os olhos volve animado P’ras bandas do Ceará; Para a terra do Tibúrcio, E do Sampaio valente: Onde melhor combatente! Mas valoroso não há! E manda chamar o Clóvis, Quando precisa um jurista; Quando fala em romancista, Lembra, José de Alencar: Portanto declaro ufano da glória que me pertence: - Sabei vós: - Sou Cearense, E a minha terra é sem par!. Estando na presença do acadêmico Alberto Galeno, neto do ilustrado poeta, Diretor desta Casa e Presidente de Honra da ALMECE, com os devidos respeitos, acrescento a essa poesia, a escritora Rachel de Queiroz como romancista, ao comemorarmos seus noventa anos e se precisar de poeta, chama Juvenal Galeno!  
Tenho dito.
  

 

 

 

 

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Pronunciado em 14/09/2000, no Auditório Nenzinha Galeno.

 

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